PAIMUTIC

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A criação de “Paimutic”, que, em meu poema, é o Deus Tempo, envolveu pesquisas sobre deuses e imagens míticas de diversas origens, com a intenção de criar uma personagem híbrida que tivesse a força mítica plural proveniente dessa mistura de mitos.

A presença de Chronos já havia sido decidida, por ele representar, em versão popularizada da mitologia grega, o domínio do Tempo. Chronos era o titã filho caçula de Urano, um pai violento, que, temendo ser destronado, mantinha os filhos presos no corpo de Gaia, sua esposa. Gaia incitou os filhos a se libertarem, atacando o pai. Mas, segundo versões do mito, somente Chronos se dispôs a isso, cortando o pai com uma foice dada pela mãe.

Tornando-se Senhor do Mundo, e casado com a irmã, Reia, Chronos se tornou um déspota (como o pai), e, também com medo de ser destronado, engolia os filhos assim que nasciam. Até o dia em que Reia salvou o filho Zeus da morte, oferecendo a Chronos pedras enroladas num manto como se fossem o recém-nascido. Esse estratagema de Reia possibilitou que Zeus tomasse a frente em um plano para destruir Chronos. Com a ajuda de Métis, Zeus conseguiu resgatar da morte os irmãos Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon, e, vencendo Chronos e seus tios, os titãs, se tornou o deus maior do Olimpo, inaugurando a geração dos deuses olímpicos. Algumas versões do mito dizem que, quando se sentiu seguro de seu poder, Zeus se reconciliou com Chronos, libertou-o da prisão e o enviou à Ilha dos Bem-Aventurados.

A imagem de Chronos ficou culturalmente fixada como a Deus do Tempo e a foice, em sua mão, desta sua força mortífera e seu caráter devorador. No entanto, recomendo fortemente que leiam, na seção com as notas finais do livro, o comentário de Marcos Martinho, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP), sobre Crono (Kpóvos), para perceberem como as versões mais populares ou massificadas muitas vezes estão bem distantes das fontes mais antigas. Paimutic, da composição ficcional que desenvolvo, traz Chronos no “c” final de seu nome e trabalha com essas versões mais populares não só do deus da mitologia grega como da apropriação do nome associado ao Tempo.

No entanto, além de Chronos, Paimutic deveria ter mais características, para que pudesse expressar, de forma mais abrangente, o poder do Tempo sobre a vida e a violência que caracteriza nosso Tempo. Assim busquei outras imagens míticas.

O “P” de Paimutic vem de Prajapati, da mitologia indiana, Senhor do Universo que dá origem ao mundo criando Brahma. É, portanto, o deus criador hindu, que concebeu todas as coisas, deuses e também demônios. Em algumas representações, Prajapati tem três faces. Assim, como Paimutic deveria representar o passado, o presente e o futuro, incorporei a ele a força criativa e as três faces de Prajapati.

O “A” de Paimutic vem de Akuanduba, mito indígena paraense da etnia dos Arara. Akuanduba era o deus da ordem. A imagem de Akuanduba o retrata com sua flauta, que ele tocava para colocar ordem no mundo, controlando os excessos dos homens, que viviam protegidos na casca do céu sob forma de estrelas. A desobediência, em grande escala, impossibilitou que Akuanduba pudesse impedir que a casca do Céu se partisse. Os homens caíram na terra e passaram a ter que lutar por seu alimento e enfrentar as dificuldades da vida na terra. A “música” de Akuanduba imprimiu a Paimutic a faceta que faz com que o Tempo tente colocar as coisas em seu lugar.

O primeiro “i” de Paimutic tem como origem o “Imperador do Jade”, imagem mítica chinesa também conhecida como “Imperador do Céu”, o deus dos deuses. Segundo as fontes consultadas, ele era o grande juiz, que julgava conflitos entre os deuses. Também tinha como característica controlar o cotidiano dos humanos, mantendo mensageiros, que lhe contavam tudo o que se passava. O Imperador do Jade deu a Paimutic a natureza controladora e também o poder de árbitro.

O “m” de Paimutic nasceu de Mot, o deus da Morte na religião dos cananeus, povo presente no Antigo Testamento. A Mot se associavam a seca e a esterilidade, além da compulsão por devorar carne e sangue humanos. Presente na identidade de Paimutic, Mot dá destaque à força do Tempo que seca a vida e torna o corpo humano incapaz de se reproduzir.

O “u” de Paimutic se refere a Urshanabi (Ur-shánabi), o deus barqueiro da mitologia da Mesopotâmia, que conduzia as pessoas por Hubur, o rio da Morte, dos subterrâneos. Sua imagem também aparece na epopeia Gilgamesh. A personalidade violenta da Paimutic, um Deus do Tempo condizente com os traços trágicos da vida contemporânea, faz dele um pouco Urshanabi também, visto que a violência amplia a visão de que o Tempo conduz todos à morte.

O “t” de Paimutic é Thoth, deus egípcio relacionado ao Tempo, à escrita, ao conhecimento e às fases da lua. Sua representação traz o rosto do pássaro Íbis e, outras vezes, o de um babuíno. Thoth confere a Paimutic a capacidade de, como a lua, apresentar-se de diferentes formas e ter, por isso, poderes diversos.

O segundo “i” de Paimutic é Iroko, orixá do candomblé, espírito da primeira de todas as árvores do mundo, orixá do carvalho, que representa o Tempo e a ancestralidade. Em Paimutic, Iroko representa as raízes do Deus Tempo com o passado, com a origens dos homens e das coisas, e as relações que o Tempo estabelece entre a vida e a morte.

Paimutic, em Sessenta minutos, é a violência do Tempo causada pelo descaso humano com o que, no próprio Tempo, seria sabedoria, criação e amor. É o Deus irado, que tenta controlar uma sociedade que não escuta a flauta de Akuanduba nem teme o julgamento do Imperador do Jade. Uma sociedade que realça todas as características negativas do Tempo, vendo nele apenas o   barqueiro Urshanabi ou Mot e ignorando que Prajapati tem três faces. Paimutic é a violência de um Chronos devorador, tirano, desacreditado do amor de seus filhos e de suas filhas, nós. No entanto, ele também é mágico.

A imagem de Paimutic que uso no livro tem como origem uma foto tirada quando visitei o Museu do Louvre em 2018 e pude conhecer a Coleção de Arte Africana. Achei esta belíssima imagem bastante condizente com o Paimutic que imaginei, principalmente pelo modo como o olhar está representado. Além disso, ele também encarna perfeitamente a força de Paimutik, com k. Lendo o livro, vocês entenderão...

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Cabe sublinhar que Paimutic, como criação literária, absorveu os aspectos míticos, coletados de diferentes fontes, mais afeitos à concepção do Deus Tempo no poema. Cada leitor ou cada leitora, certamente, poderá imaginar seu Paimutic com diferentes traços estéticos e de personalidade. Também é importante, conforme eu disse mais acima, que se faça a leitura da nota sobre Kairós, que está no final do livro e que aqui não reproduzo para não antecipar o final do poema.

Vejam, no final de Sessenta minutos, as referências que consultei para falar um pouco sobre esses mitos.

Christina Ramalho

(16/01/2021)