Dois fios de prosa

- Ei, num vai arrancar os bichinhos não, visse?
- Oxe, tá louco, homi? E eu lá vou arrancar fios de sua sobrancelha? Só estou mexendo. São tão bonitinhos esses dois fiozinhos brancos... 

Olhou para mim ainda desconfiado... Parecia que eu estava bulindo com um tesouro... Falei:

- Amor, quando a gente se encontrou pela primeira vez, eles não estavam aí não...


O danado me lançou aquele olhar irônico que faz o canto do olho sorrir debochado. Dei um beliscão na barriga dele:

- Pára, seu chato!! (Comecei a rir). Está querendo dizer que eu sou a culpada, né? Paiacinho!!!! (Fiz cosquinhas simulando raiva)
- Oxe, muié! Pare com isso! (Segurou minhas mãos implicantes) Eu num disse nada não... Você foi quem falou. (Desandou a rir). Deixe meus fiozinhos quietos! Adoooooro os dois!
- Puxa, amor, são bonitinhos mesmo! E eu mexo sim! É tudo meu mesmo!
- Verdade. Mas cuidado aí.

Continuei mexendo nos "meus fios". Provoquei mais:

- Seu cabelo também ficou mais grisalho desde então... E você tem só 42 anos...
- É mesmo, é?
- É!!! E a barba? Logo estará branquinha! 
- Pois é! Vai ficar bonita!
- Jura? Jura que gosta?
- Oxe, homi! Claro!
- Hummmm... Você vai ficar ainda mais lindo.
- Lá vem você com suas presepadas... (Ele pedia mais dengo...)
- Nada disso. Oia só que coisinhas mais lindas! (E fiquei relando com os fiozinhos...) Num vão cair não... São fortes que só! Iguais a você! 


Ganhei o abraço moreno de sempre e ficamos ali engalfinhados ainda ao som da conversa caseira sobre o ineditismo daqueles fiozinhos coincidentes com minha presença na vida dele. Aí o danado falou:

- São as preocupações que você me trouxe, sua Galeza azul! Como um homi vai ter sossego com uma flor de milho peste que nem você? (E o canto dos olhos sorriram de novo no rosto moleque e agora grisalho daquele pedaço de homem cujos detalhes eu vigio todos os dias como se cuidasse de um jardim).

Comecei a rir... E fiz mais uma vez aquilo que ele adora que eu faça: usei as palavras para dar uma cambalhota no sentido das coisas e na situação:

- É nada, amor! Esses dois fiozinhos brancos são um sinal!
- De quê, sua peste?
- De que vamos ficar beeeeeem velhinhos juntinhos... Um agarradinho no outro.
- Vem cá, sua danada.

Fechemos as cortinas, que os fiozinhos precisam conversar sobre outras coisas.

(Mas, ainda preciso dizer: cotidianamente eu espio os dois fiozinhos. Já há um projetinho de terceiro apontando. E me vem uma ternura grande. Todos nós envelhecemos todos os dias. Mas a chegada dos fios brancos (não os precoces, mas os que vêm pela idade mesmo) parece traçar um equador firme e definitivo. Provoca reflexão. Às vezes medo. N'outras, desconforto. Os dois fiozinhos dele (meus!) ali juntinhos, como se solidários aos meus tantos, só me dizem uma coisa: "amor". Que sensação divina a de estar certa de que envelhecer será - está sendo - maravilhoso. Porque "ele", meu honorável Moreno de sobrancelha direita pseudo-grisalha, existe.
Christina Ramalho (crônica escrita em 2017)
 
Nós dois
Both of us
Nous deux
Nosotros dos