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Foto  que tirei do Coliseu, em minha visita a Roma em 2013.

COLISEU

O Coliseu, talvez o mais famoso ponto turístico da cidade de Roma, anfiteatro com diâmetro de 187 metros e capacidade para um público provável de 60.000 pessoas, teve sua construção iniciada pelo imperador romano Tito Flávio Vespasiano em 72 d.C e sua conclusão realizada pelo filho de Vespasiano, o imperador Tito Flávio César Vespasiano Augusto, em 80. Segundo o livro Roma reconstruída (publicado pela Editora Archeolibri, Roma, 2007), o nome do Coliseu era “Anfiteatro Flávio”, mas o apelido “Coliseu”, fruto da proximidade do gigantesco anfiteatro com o “Colosso de Nero”, logo pegou e passou a designar a obra mundo afora. 15.000 homens participaram de sua construção. Dois terremotos, em 442 e 508, trouxeram graves danos ao Coliseu.

 

A descrição extraída de Roma reconstruída revela bem o motivo de o Coliseu ser também famoso como signo de violência e crueldade tirana:

 

O Coliseu tinha a função de um gigantesco estádio da nossa época, mas os espetáculos preferidos eram os jogos de Circo (ludi circensis), jogos inventados nos últimos tempos da república com a finalidade de estimular e alimentar nos espectadores o espírito guerreiro que os tornava senhores do mundo. Isso deu origem à profissão dos Gladiadores, os quais eram treinados para combater, matando-se entre si enquanto as feras de toda espécie aumentavam o horror do espetáculo (2007, p. 30).

 

Por determinação do Papa Benedetto XIV (1740-1748), o Coliseu passou a ser lugar para a “devoção à Via Crucis” e, para isso, ele mandou alçar uma “cruz sobre o terreno que a lenda ligou ao nome de milhares de mártires cristãos” (2007, p. 34). Assim, o Coliseu se tornou também símbolo de crítica à violência tirânica, ainda que tenha sido ele próprio palco de muitas execuções de seguidores de Cristo.

 

Trazido para Sessenta minutos, como título de uma de suas partes, o termo “Coliseu” oferece a quem lê o poema algumas possibilidades de associações de ideias e interpretações sobre essa escolha.

Convém ainda explicar que o título "Coliseu" foi o que me pareceu mais expressivo para introduzir o/a leitor/a no cmapo semântico do "minuto-métrico 4", em que me refiro a duas "arenas malditas". A primeira se refere à morte de George Floyd, de 46 anos, no dia 25 de junho de 2020, na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos da América. Floyd, sufocado pelo joelho de um policial, pedia socorro, deitado no chão da rua, e dizia que não conseguia respirar. Ainda assim, não foi atendido e morreu agonizando.  A repercussão, no Brasil, foi relacionada ao caso do adolescente de 14 anos, João Pedro Mattos, que morrera, uma semana antes, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, atingido por uma bala de fuzil, enquanto brincava com amigos em casa. Mais adiante, no dia  19 de novembro, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, também foi violentamente assassinado por dois seguranças do Carrefour de Porto Alegre.  De forma semelhante à de Floyd, João Alberto, no chão, anuniciou que iria morrer. Um jovenzinho e dois homens negros. Suas mortes, veiculadas por todo o mundo, revelaram uma arena cruel, o Coliseu da contemporaneidade, em que o público se alimenta do horror, muitas vezes repudiando o que vê, mas pouco fazendo, de fato, para que as vidas negras importem. O movimento "Black Lives Matter" luta para que horrores como esses não continuem acontecendo.

A forma que encontrei de homenagear George Floyd e João Alberto Silveira Freitas (além de João Pedro e muitas outras vidas ceifadas por este sistema racista e materialista que nos envolve) foi criar o "minuto-métrico 4", em que "fato" se refere a Floyd e "retrato", a João Alberto. Os termos "'rélpimi" e  "Ai, quente!" aludem ao "Help me!" e ao "I can't breath!", de Floyd, que, na arena do Carrefour, tornou-se um novo "hell" (inferno).

É nesse palco de violência, racismo, necropolítica, que Pachamary terá que lutar para convencer Paimutic, o Deus do Tempo, a romper com os laços que o atam a esse contexto trágico e cruel.

 

Christina Ramalho

(16/01/2021)