Signo: Aquário
Horóscopo chinês:
gato ou lebre
Quem segura o vento?
Quem desfaz as curvas
ágeis do pensamento?
Quem amarra o voo
de quem nasceu para
ser passarinho?

DISCURSO DE AGRADECIMENTO

OU O DESFILE DA ESCOLA DE SAMBA E DE FORRÓ TUIUTI SERGIPANA

 

Boa tarde a todos e a todas. Saudações às pessoas que compõem a mesa, em especial à Deputada Ana Lúcia, sem a qual esta cerimônia não estaria acontecendo, e a Cristyano Aires Machado, com quem divido, com felicidade, este momento. A Elder Muniz, assessor da Deputada Ana Lula; e à Laura, cerimonialista da ALESE, minha gratidão por materializarem este dia. A meu pai, Amauri, e a minha filha, Isadora; a meu irmão de fé, Carlos Alexandre; a escritora cabo-verdiana e amiga Dina Salústio aqui presente; a meus amigos e a minhas amigas, entre os quais e as quais incluo os companheiros e as companheiras de luta aqui presentes, meu muito obrigada por terem vindo. A você, Ítalo, meu Moreno mais que marido, sorte grande da minha vida, a alegria de falar por mim, sabendo que falo por nós dois.

Inicio meu discurso de agradecimento pelo título de cidadã sergipana, recordando que, no dia 4 de agosto de 2016, eu tive a honra de receber das mãos da então vereadora pelo PCdoB, Lucimara Passos, o título de cidadã aracajuana. Naquela ocasião, em meu discurso, apresentei um texto metafórico intitulado “Discurso de agradecimento ou Canção da casa própria”, no qual explorava a imagem da casa, para falar sobre os profundos e mais verdadeiros sentidos que a expressão “casa própria” poderia ter, se tivéssemos sensibilidade para pensar além da materialidade das coisas. Foi uma emoção imensa receber, das mãos da guerreira Lucimara Passos, as chaves de uma “casa própria” chamada Aracaju. Hoje, dia 23 de abril de 2018, aqui na Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, eu venho receber, das mãos de outra enorme guerreira, a admirável Deputada Ana Lula, do nosso PT, novas chaves. As de uma “casa própria” chamada Sergipe. Sinto-me, assim, devidamente autorizada a falar como uma carioca sergipaníssima e a colocar na avenida desta Assembleia um desfile de palavras, organizado em quatro alegorias, que mesclam o samba em que fui moldada, o forró que se aderiu às paredes do meu ser e o grito militante, escrito em língua indígena, meu grito-tuiuti, palavra-pássaro, com pressa, com urgência de dizer.

Antes do desfile das alegorias, recordo, ainda, que naquela ocasião, o que, em síntese, eu quis ressaltar é que, no final das contas, a única casa própria que temos é a nossa consciência. Ser uma casa personalíssima e de beleza única ou ser apenas escombros pode não se tratar de uma questão de escolha para representativa parcela da população brasileira, cuja vida, beirando ou mergulhada na miséria, muitas vezes sequer permite uma opção de escolha sobre a casa que se quer ser. E, ainda assim, quantas casas belíssimas são por essa parcela construídas, sem fundações, sem paredes, sem teto, sem chão, mas apenas com a argamassa da força de existir apesar de todas as perversidades de uma sociedade injusta, desigual e, por isso, violenta. Nós, no entanto, que estamos aqui, somos, sem dúvida, pessoas a quem foi dada a chance de escolher que casa construir. Logo, o desfile tuiuti-sergipano que entra nesta avenida é, em primeiro lugar, destinado a vocês, que sei que poderão entender os múltiplos sons da bateria e as plurais imagens das imaginárias alegorias.

Minha Tuiuti Sergipana, cabe dizer, tem todas as cores. É feminina, masculina, plural. No estandarte, a figura imponente de São Jorge, o Oxóssi baiano, o Ogun afro-brasileiro, que a cada tortura fazia maior sua fé. Sigo agora narrando o desfile, que a imaginação de vocês materializará.

Entra na avenida o abre-alas da Tuiuti Sergipana. É um carro enorme, que apresenta um chafariz gigantesco, do qual jorram águas de palavras vermelhas. Palavras vermelhas como o sangue indígena e como o sangue africano de uma história que já começou ditada pela lei do mais forte, pela lei da ganância, pelo uso abominável do nome de Deus e do nome de Jesus, como falsas senhas para garantir o direito de matar. O chafariz horrendo lança perguntas vermelhas no ar: “Você sabia que hoje, em 2018, a cada minutos, 20 pessoas morrem de fome no mundo?”; “Você realmente sabe o que é sentir fome?”; “Você consegue viver feliz mesmo com tanta gente morrendo de fome?”; “Você conhece, de verdade, a realidade dos moradores e das moradoras de rua?”; “Você já fez suas necessidades numa calçada?”; “Você já comeu restos catados do lixo?”; “Você já foi preso ou presa por roubar galinhas?”; “Você já foi torturado ou torturada por defender a verdade?”; “Você já tentou se colocar na pele de quem sofre uma violência sexual?”. O chafariz magnífico passa, espargindo perguntas vermelhas, que molham as faces do público. E naquele momento mágico, o sangue que escorre é um só, porque todos e todas sofrem a mesma dor. E porque todos e todas sofrem a mesma dor, o vermelho se converte em amor.

Vem o segundo carro. É o Carro das Sete Mulheres. Todas também magníficas, trajando os signos de seus enfrentamentos. Na arquitetura criativa do carnaval-forró, elas se movimentam, interagindo com o público. Estão em círculo. Um círculo que gira, permitindo que todos e todas as vejam e com elas e a partir delas ouçam em tom ainda mais alto a canção que embala a desfile. Marielle Franco está vestida com o tecido do povo das comunidades pobres cariocas. Exuberante e altiva, porta na mão esquerda a lança de São Jorge e, na mão direita, uma estatueta quebrada da Justiça. Em seus olhos, a lágrima pesada que prevê os tiros. Em seu sorriso, a seiva da Mãe Terra, que se eterniza no povo. A seu lado, a quilombola Dandara, companheira de Zumbi, surge cercada de crianças negras, brancas, vermelhas e amarelas, que se agarram às suas pernas, com medo de serem crianças. Surge, então, com o papagaio no ombro, Dona Zefa da Guia, estendendo as mãos às crianças de Dandara, como a lhes dizer que a luta é, sim, capaz de vencer o medo. Mais uma figura se revela, no girar do círculo maravilhoso. É Dilma Rousseff, poderosa, com o braço direito estendido para cima e o punho fechado a gritar, por ela, o grito de quem não sucumbiu à corja da traição. Mais presidente que nunca, assiste à vergonha de quem finge não ter feito parte da corja. Ao lado de Dilma, Olga Benário, segurando nos braços a filha que o nazismo lhe roubou apoiado pela covardia brasileira. A seus pés, a serpente do fascismo jaz morta. Sexta figura do círculo, Lucimara Passos está vestida com o tecido das mulheres combativas, que vencem a violência dos homens e ainda têm força para cuidar da gente sofrida, passando por cima de suas dores, porque as sabe menores que as de muitíssimas pessoas. Fechando o círculo, a Deputada Ana Lula, símbolo da militância corajosa, acena a seu povo um adeus carregado de lições (e emoções), ciente de ser modelo para outras mulheres que terão nas mãos a missão de perpetuar os amarelos dos setembros, os brancos dos janeiros e a alimentação de todos os dias. De repente, em típico efeito da criatividade carnavalesca, o círculo começa a girar velozmente. No ar, fruto das mãos dessas mulheres, que se irmanam em nome da igualdade, da justiça e da liberdade humana, irrompe um botão de rosa. Vermelho como as águas do chafariz, regado e alimentado pela força vermelha do amor.

A terceira alegoria não demora a surgir. É um imenso cacto. Um mandacaru solitário. Aparentemente solitário. A seu redor, o solo seco da caatinga. As pedras, o pó, a fumaça que resulta das pancadas agudas do sol. Mas, cumprindo a sina de ser alegoria espetacular, eis que as pedras se transformam. E o mandacaru se vê cercado de bancos, indústrias, fábricas, antenas de televisão e telefonia, rodovias, portos, aeroportos, carros, robôs, matéria que se multiplica sem cessar. Não há presença humana. Há coisas. Coisas ainda mais secas que o solo anterior. Espremido pela força hercúlea da opressão material, o mandacaru começa a murchar, até que o botão de rosa da alegoria anterior se abre e faz jorrar sobre a terceira alegoria as palavras vermelhas que lhe haviam nutrido. Ao toque dessas palavras, águas com poder de transformação, o mandacaru volta a inchar e de seus espinhos brotam milhares de nordestinos e de nordestinas que invadem a cidade cinza para nela plantarem o humano, a cor, a beleza, a natureza, os animais, a amizade e a simplicidade. Em pouco tempo, a alegoria é outra. O mandacaru florido sorri no meio da cidade colorida, onde circula o sangue do sonho que se realizou.

Fechando o desfile, uma alegoria rara. Apenas uma imensa folha de papel em branco flutuando no ar. No entanto, sua forma branca, silenciosa e cheia do mistério que o silêncio tem, só se apresenta assim para quem a vê de longe. Observem. Usem a imaginação. Assim que ela passa diante de seus olhos, palavras são ali escritas. Palavras que são o registro dos pensamentos e dos desejos de vocês. Não posso ler tudo o que está escrito. Mas posso confiar que, como seres que querem ser casas próprias dignas do nome de humanas, vocês estão escrevendo palavras de luta, de coragem, de compaixão, de justiça, de determinação. Neste papel, neste desfile, está sendo escrito nosso Sergipe, está sendo escrita nossa nação. Porque somos, todos e todas, autores e autoras deste samba-forró. Somos os tuiutis que voam pelas ruas do campo e da cidade. Somos. Mesmo que ainda não saibamos. Mesmo que tenhamos que sangrar todos os sangues de todas as dores até aprendermos. Mesmo que tenhamos que ser mil vezes público até entendermos que o palco da vida só acontece quando decidimos atuar nela e por ela. Por nós, pelos outros e pelas outras, porque tudo, na verdade, é uma casa só: a infinita consciência do planeta, que estamos violentando com nossa cruel passividade.

Um momento. Eis que a última alegoria passa por meus olhos. Ah, realmente, a folha não está em branco. Meus pensamentos e meu sentimentos estão desenhando as letras com que, agora, me despedirei. Meu ser, sergipanissimamente apaixonado pela nordestinidade de existir aqui e agora; meu ser, que quer ser consciência aguda em prol da dignidade, da igualdade, da justiça e da liberdade, escreve com letras vermelhas, verdes, azuis e amarelas: “Lula livre”. Obrigada.

 

Christina Bielinski Ramalho

Aracaju, 23 de abril de 2018.